A Prefeitura de Canoas apresentou um projeto de lei que autoriza a concessão de áreas públicas municipais para as cooperativas de reciclagem que atuam na coletiva seletiva. A proposta prevê a cedência no período de 20 anos, visando segurança jurídica e valorização do trabalho feito pelos catadores na cidade. O texto nº 78/2025 está em análise na Câmara Municipal.
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Foto: Paulo Pires/GES
Se aprovado, o documento se torna um mecanismo legal, permitindo que as cooperativas tenham um espaço próprio para ampliar sua capacidade de trabalho. Na avaliação da Prefeitura, a medida reconhece a importância dos catadores organizados.
“Atualmente, diversas cooperativas enfrentam limitações estruturais decorrentes da ausência de sede própria adequada, o que compromete a instalação de equipamentos, a ampliação da capacidade produtiva e o cumprimento das exigências legais, sanitárias e ambientais. Para essas dificuldades, toma-se imprescindível viabilizar espaços físicos estáveis e adequados para triagem, armazenamento e processamento dos resíduos recicláveis”, argumenta o projeto.
O prazo de concessão indicado é de 20 anos, período necessário para consolidação de investimentos e adequações das estruturas. “O prazo proposto garante segurança jurídica às cooperativas e facilita a captação de recursos públicos e privados, além de possibilitar o acesso a políticas de fomento, como a Lei de Incentivo à Reciclagem”, entende.
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Demanda antiga
O projeto de lei nº78/2025 toca em uma das maiores demandas das cooperativas que atuam em Canoas. Muitas delas atuam em condições que não são ideias, e ainda sim desenvolvem um trabalho impactante na cidade.
Uma delas é a Cooperativa Mato Grande Canoense (CMGC), fundada em 2019, que recolhe materiais recicláveis nos bairros Nossa Senhora das Graças, Marechal Rondon e Igara. Por mês, são processadas cerca de 35 toneladas de papel, vidro, plástico e PETs marrom, verde e transparente.
Todo esse trabalho é feito por 25 catadores, motoristas e educadores ambientais num espaço alugado na Rua Engenheiro Kindler. Mas a iluminação não é boa e alguns processos ainda são manuais.
Das 8 às 17 horas, os trabalhadores separam os materiais em uma mesa e empilham os sacos de forma manual. O ideal é ter uma esteira e empilhadeira para facilitar trabalho, mas isso só será possível em um espaço próprio.
“Se tivermos um galpão nosso, vamos conseguir ter uma prensa e os equipamentos como esteira na mesa. Hoje em dia, se trabalha assim. Também vamos conseguir conquistar o nosso elevador porque as meninas erguem as bags na mão. Vai facilitar o trabalho”, relata o educador Alisson Agertt, 22 anos.
Como está a situação de cada cooperativa
- Coopermag – Mato Grande
Endereço provisório – galpão alugado foi atingido pela enchente
- CMGC – Mato Grande
Prédio alugado – galpão original foi destruído no ciclone bomba
- Coopersol – Niterói
Prédio alugado
- Mãos Dadas – Fátima
Área cedida pelo município, mas cedência está pendente
- Renascer – Guajuviras
Área cedida pelo município
- Cooarlas – Guajuviras
Possui galpão estruturado -
Coopcamate – Mathias Velho
Sem informaçõesPublicidade -
Coopertec – Rio Branco
Sem informações
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Local próprio permite avanços
Quando o Alisson fala em ter um galpão próprio é porque isso permite angariar recursos e desenvolver outras ações junto a programas e instituições. Entre elas, o Instituto Caminhos Sustentáveis (ICS), responsável pelo projeto Conexões Sustentáveis com recursos da Petrobras.
Para 2026, o ICS quer construir e reformar os galpões de cinco das oito cooperativas que atuam em Canoas. Para isso, precisa da segurança jurídica que somente um endereço próprio possui. Esse argumento é exposto no projeto da Prefeitura.
“A gente tem um problema muito sério com a regularização das áreas. Se não conseguimos regularizar, podemos perder recursos e isso é muito sério. Às vezes, é um terreno regular, mas as Às vezes é um terreno que está próximo de uma área sensível. Mas veja, as cooperativas estão abertas para sentar e conversar se tiver que ser em outra área”, afirma o presidente do ICS, Dione Manetti.
Em relação aos locais de trabalho, a proposta é construir os galpões das cooperativas Renascer, CMGC e Coopermag (Mato Grande). Além disso, reformar as estruturas da Mãos Dadas (Fátima) e Coopcamate (Mathias Velho). De acordo com o instituto, o processo deve levar cerca de 180 dias.
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É para fazer a diferença
Assim como a CMGC, a cooperativa Renascer também não tem local próprio e aguarda a construção de um novo galpão para melhorar o serviço que presta desde 2011. O galpão fica ao lado do aterro sanitário de Canoas, no final da Estrada do Nazário, no bairro Guajuviras.
Lá, cerca de 23 trabalhadores mexem com plástico, papel, vidro, metal, sucata, alumínio e isopor. Uma delas é a Michele Ferreira dos Santos, 42 anos. “A estrutura que a gente tem hoje é bem precária. É um galpão de madeira que é insuficiente pelo número de pessoas. A gente trabalha de uma forma mais apertada, não pode colocar mais ninguém”, relata.
“Num dia de chuva, por exemplo, as gurias ficam pisando no barro, passando de um galpão para outro. São dois galpões pequenos lá na área do aterro. E tem lugares que pedem coleta, mas que não pode buscar porque não tem onde guardar. Então, vai ajudar muito ter um espaço novo, vai melhorar o nosso trabalho”, reforça Michele.
“A gente ajuda a ter menos poluição”
As cooperativas são “unidades de negócio”, como gosta de definir o presidente do ICS, Dione Manetti. “Nós não podemos tratar a cooperativa como projeto social. Nós vamos ter catadores e catadoras em muitas cooperativas que talvez precisem de algum serviço das políticas públicas voltadas ao atendimento social. Isso é verdade. Mas cooperativa é uma unidade de negócio e, portanto, ela tem que está equipada, estruturada e que precisa ter qualificação para seus colaboradores”, entende.
E uma unidade de negócio gera resultado: foram 15 milhões de toneladas de materiais recicláveis recolhidos em 15 anos de contrato de coleta seletiva em Canoas. O montante nada mais é que resíduos que deixaram de ir para o aterro sanitário e ganharam uma nova destinação.
O levantamento foi feito pela empresa Apoena Socioambiental junto com as cooperativas. Os dados foram apresentados durante a 4ª edição do Seminário Canoas Recicla com a Gente, realizado em setembro.
Os contratos começam a ser firmados a partir de 2010 com a Lei nº 12.305/2010, do governo federal que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos; e da Lei nº 5.485/2010, da Prefeitura de Canoas, que inaugura o serviço público de coleta seletiva de resíduos recicláveis.

Foto: Paulo Pires/GES
São esses os mecanismos que permitem que a recicladora Liliane Mendes, 41 anos, tenha renda para criar os seus quatro filhos. A moradora do bairro Mato Grande trabalha na CMGC há quase cinco anos e reconhece não só a importância da cooperativa, mas também o impacto da sua profissão.
“Eu adoro estar aqui. A gente ajuda ter menos poluição e também ajuda as famílias que trabalham aqui. Ter uma renda é muito importante e aqui o pessoal ajuda muito. Já trabalhei fora, mas a cooperativa deu outra oportunidade, tem benefícios. Eu posso levar na escola, no médico, sem problemas”, destaca Liliane, que atua na mesa separando os materiais.
E a vida é outra desde que entrou na reciclagem. “A gente tem mais conhecimento. Eu sei o que eu faço e o que eu faço ajuda o mundo, o planeta. A cooperativa abre outras portas para ir além, conhecer outras coisas. Não é só o salário”, destaca.
Cooperativas em Canoas
Cooarlas – Cooperativa de Trabalho de Reciclagem Amigas e Amigos Solidários
Endereço: R. Bela Vista, 14 – Guajuviras
@cooarlas
Coopcamate – Cooperativa de Trabalho dos Recicladores de Materiais Recicláveis de Canoas
Endereço: R. Dom Pedrito, 800 – Mathias Velho
@cooperativa_coopcamate
Coopermag – Cooperativa de Trabalho de Coleta Seletiva e Reciclagem União Faz a Força de Canoas
Endereço: R. Elizabeth Maria Finkler, 270 – Mato Grande
@cooperativacoopermag
Coopersol – Cooperativa de Trabalho dos Recicladores de Resíduos Sólidos Sol Nasceste
Endereço: Rua Washington Luiz, 165, Niterói
@coopersol
Coopertec – Cooperativa de Trabalho de Reciclagem Tecnológica
Endereço: R. Primavera, 198 – Rio Branco
@coopertecrs
Mãos Dadas – Cooperativa de Trabalho dos Catadores
Endereço: R. Prof. Ney Lobo, 85 – Fátima
@maosdadas.coop
CMGC – Cooperativa Mato Grande Canoense
Endereço: Rua Engenheiro Kindler, 1261
@cmgc_oficial
Renascer – Cooperativa de Trabalho de Reciclagem
Endereço: Estrada do Nazário, 3303 – Guajuviras
@cooperativa_renascer
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