Falta apenas uma semana para a validação da taxa de 50% sobre produtos brasileiros que entrarem em solo norte-americano. A taxação deve ter início na próxima sexta-feira (1º) e, até o momento, não há indícios de que possa ocorrer uma revogação da medida anunciada por Donald Trump no dia 9 de julho.

Foto: Abicalçados/Divulgação
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Na última quarta (23), o presidente dos EUA afirmou que as tarifas recíprocas para os países ficarão entre 15% e 50%. Segundo ele, o imposto de 50% será aplicado a países com os quais os Estados Unidos “não estão se dando bem”.
Como o impasse, que envolve questões políticas, especialmente em relação ao ex-presidente Jair Bolsonaro, parece longe de ser resolvido fica a questão: existem alternativas para amenizar ou suprir a demanda brasileira que segue para o mercado dos EUA?
Ao que tudo indica, empresas vão tentar buscar novos mercados. A CMPC, indústria de celulose que possui fábrica em Guaíba, visa transferir a parte da produção gaúcha que abastece os Estados Unidos para a Ásia e a produção feita nas unidades fabris do Chile devem ir para o mercado norte-americano. “É uma alternativa aceitável, mas não sustentável”, disse o diretor-geral de celulose da CMPC no Brasil, Antonio Lacerda. O relato ocorreu durante evento realizado pelo Sistema Fiergs na última terça (22), em Porto Alegre.
Desafios do couro e calçado
Essa “troca” de mercado não é algo fácil. No caso do setor coureiro-calçadista, fundamental também para a economia gaúcha e da região, há foco no private label, com pares destinados exclusivamente à clientes norte-americanos.
“Hoje, o calçado brasileiro está presente em mais de 160 países, com apoio fundamental da Abicalçados por meio do Brazilian Footwear, programa de internacionalização que mantemos em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil). Por outro lado, o calçado exportado para os Estados Unidos, na sua maior parte, é comercializado na modalidade private label, ou seja, com a marca do cliente norte-americano. Esse produto é produzido de acordo com as características específicas do importador estadunidense. Portanto, ele não pode ser comercializado para outros destinos e até mesmo no mercado interno”, detalha o presidente-executivo da Abicalçados, Haroldo Ferreira.
A Abicalçados, assim como outras entidades industriais, defende a manutenção da tarifa em 10%, anunciada em abril, ou que haja uma prorrogação de, pelo menos, mais 90 dias para que possam ocorrer negociações. “Estamos otimistas que a histórica relação comercial entre o Brasil e os Estados Unidos irá prevalecer sobre o impasse. Afinal de contas, é um jogo de 1perde perde1, o Brasil perde sua competitividade nas exportações para os Estados Unido”, diz Ferreira.
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José Fernando Bello, presidente executivo do CICB, lembra que os EUA são o segundo maior destino das exportações brasileiras de couro, com 13,3% de participação em 2024 e 13,6% até junho de 2025. “O perfil dessas exportações evidencia a relevância estratégica desse mercado: mais de 92% dos embarques correspondem a couros acabados, produtos de alto valor agregado que contribuem para geração de empregos, desenvolvimento tecnológico e incremento de competitividade para a indústria nacional”.
Em virtude desta relevância, Bello não acredita em alternativas viáveis em um curto prazo que substituam “as relações comerciais sólidas, longevas e bilateralmente benéficas para o couro entre os dois países”. Um dos possíveis caminhos, conforme o presidente-executivo do CICB, seria a ampliação de mercados na Ásia.
“Especialmente China e Vietnã, são mercados que estão no horizonte. Mas ainda assim sem a perspectiva imediata que seria demandada, e nem com resultados garantidos. Buscamos sempre a diversificação de destinos para exportações de couro do Brasil (anualmente, são cerca de 70 nações que importam o nosso material), mas o foco principal precisa ser a revisão da taxa imposta pelos norte-americanos”, observa.
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Impactos também nos empregos
Por se tratar de calçados com maior valor agregado, preferencialmente em couro, o Sindicato da Indústria de Calçados de Três Coroas (SICTC) também não vê possibilidade da absorção pelo mercado nacional.
“Além disso tem todo o investimento que tu faz para este produto, materiais, maquinários, é um mercado que exige certificações específicas. Há um preparo muito grande para este mercado. Relançar isso para o mercado interno é difícil, a competitividade é diferente”, alerta o presidente do SICTC, Márcio Port dos Santos.
O executivo comercial do sindicato, Juliano Mapelli, faz referência ainda os impactos nos empregos. “O setor calçadista envolve muita mão de obra. Até realocar a produção que iria para os EUA vão ocorrer muitas perdas. É algo que atinge toda a cadeia. É preciso haver boa vontade de um lado e o outro lado não atrapalhar”, diz Mapelli.
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Reposicionar o calçado
O presidente do Sindicato da Indústria de Máquinas e Implementos Industriais e Agrícolas de Novo Hamburgo e Região (Sinmaqsinos) e do Conselho Estratégico do The South Base, Marlos Schmidt, também acredita em medidas de compensação por parte do governo federal. Outro ponto defendido é o reposicionamento do calçado no no mercado dos EUA, algo que já vem ocorrendo por meio do movimento do The South Base, antes chamado de Pacto Calçadista.
“Precisamos olhar para os Estados Unidos ainda como sendo o maior comprador e fazendo o reposicionamento do calcado brasileiro. Aí entra nosso trabalho com o The South Base. Temos que continuar trabalhando o mercado de lá para não se perder o que temos de capacidade de entrega”, ressalta.