O setor calçadista brasileiro é um dos mais afetados pelo tarifaço de Donald Trump. A cobrança de 50% sobre produtos brasileiros que entram nos EUA afeta a produção nacional, assim, claro, como as exportações. A conjuntura econômica atual e as projeções para este final de ano e 2026 foram abordadas durante a 2ª edição da Análise de Cenários, pela Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), realizada ontem (7).

Foto: Juliana Nunes/GES-Especial
A apresentação conduzida pela coordenadora de Inteligência de Mercado da Abicalçados, Priscila Linck, ocorreu na sede do Sindicato da Indústria de Calçados e Componentes para Calçados de Três Coroas (SICTC).
Conforme a análise feita pela entidade calçadista, a produção já vinha em queda e registrou nos primeiros oito meses do ano um percentual de -2,3%, em comparação com o período do ano anterior. O mês de agosto, quando o tarifaço já estava em vigor, representou uma queda acentuada de 10,2.
“Mas se olharmos o período anterior já tínhamos crescimento próximo a zero, produção andando de lado. Claro que isso também é um pouco reflexo ao patamar prévio à pandemia, que voltamos ano passado. Em 2026, o crescimento deve ficar em torno de 2%”, observa Priscila.
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Exportações
As exportações devem fechar o 4º trimestre de 2025 com 24 milhões de pares, uma queda de 6,9, no comparativo com mesmo período ante 2024.
“Viemos nos dois últimos meses (agosto e setembro), por efeito dos EUA, queimando parte do ganho que tivemos nos meses anteriores de 2025. Expectativa é que a gente desacelere. Em setembro tivemos uma queda de 25% dos embarques para os Estados Unidos. Muita coisa conseguimos manter, muitos pedidos que já estavam em carteira, muito do impacto foi em novos pedidos.”
Para 2026, diante dos entraves comerciais e econômicos, as projeções da Abicalçados mostram uma diminuição de 22,3% no volume embarcado no 1º trimestre, em relação aos três primeiros meses de 2025.
Impactos na região
O presidente do SICTC, Márcio Port dos Santos lembra que o cenário internacional, que envolve a tarifa dos EUA, crise na Europa e guerras, desestabiliza o mercado brasileiro.
“O final do ano é momento de alta produção, hora extra, para dar conta da entrega dos produtos para o Natal e não é isso que está acontecendo. Com as restrições, as empresas têm mantido a carteira de pedidos mais curta. Isso impacta toda a economia da região, menos vendas, menos consumo”, avalia.
O presidente do sindicato vê a conversa entre Lula e Trump com bons olhos. “O cenário político vai interferir mais de 50% nos resultados em 2026. É ano eleitoral e o Lula não vai querer ir contra o principal destino do calçado brasileiro.”
Para Jaqueline Assis Ramos, executiva do Sindicato da Indústria de Calçados, Vestuário e Componentes para Calçados de Igrejinha (Sindigrejinha), os impactos do tarifaço, como queda na produção, demissões e aumento nos preços dos pares, já são realidade e atingem toda a cadeia.
“Atuo com empresas que trabalham 95% com os Estados Unidos, que estão com seus produtos bem direcionados para este mercado, e há quem esteja desesperado, algumas fazendo estoque. Mas o que vejo é uma espécie de triangulação, porque se você trabalha com o mercado interno também é afetado. Quem exporta pode estar readequando sua produção para o mercado nacional e é atendido pela indústria de componentes que atende também quem exporta. Afeta toda a cadeia calçadista”, detalha.