Quando preso na frente da pousada onde estava hospedado, na zona norte de Porto Alegre, na noite de quinta-feira (4), o publicitário Ricardo Jardim, 66 anos, demonstrava uma necessidade egocêntrica de falar sobre como esquartejou a namorada e espalhou os restos mortais, no mês passado. Chegou a dizer, sem ser perguntado pelos policiais, o que pretendia fazer caso não fosse capturado. Condenado por matar e concretar a mãe em 2015, Jardim estava foragido do sistema prisional.
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“Era prioridade prender esse indivíduo perigosíssimo. Os policiais não o questionaram sobre nada, pois o investigado tem as garantias constitucionais de ser interrogado na presença de um advogado, mas ele começou a contar que fez isso, fez aquilo. Parecia ter a necessidade de falar”, declara o diretor do Departamento Estadual de Homicídios e Proteção à Pessoa, delegado Mário Souza. Segundo ele, o esquartejador não reagiu e se comportou com “muita tranquilidade e educação”.
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Suspense policial
O interrogatório deve ocorrer nos próximos dias, mas a captura, conforme o diretor, já trouxe novos elementos insanos à investigação. Para Souza, o publicitário parece ter se inspirado no filme de suspense policial “Seven, Os Sete Pecados Capitais”, de 1995, uma ficção que narra atrocidades de um serial killer.
“Pela conduta que teve, como levar à rodoviária parte do corpo da vítima, parece que queria afrontar e manter o controle sobre a investigação, além de plantar falsas provas. Só que conseguimos ser mais rápidos que ele.”
O publicitário foi contido antes do ato seguinte do enredo, que seria o que faria com a cabeça da vítima, ainda não encontrada. Em meio aos relatos informais aos agentes, conforme o delegado, o acusado disse como planejava o desfecho: “No final de tudo isso, eu ia me matar”.
Pela conduta inicial, Jardim só não vai detalhar o crime e o motivo se for orientado pelo advogado a usar do direito de ficar em silêncio. “O crime está esclarecido, mas a investigação continua. Entre os fatos pendentes, vamos perguntar onde está o crânio.”
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Delegado conclui que crime foi premeditado
A investigação apurou que a namorada foi morta no dia 9 de agosto, em uma pousada na zona norte da capital, onde estaria morando há seis meses com o publicitário. “Ele planejou. Preparou o ambiente. Forrou o quarto com uma lona grossa do chão ao teto, presa com fitas adesivas. Estava bem isolado”, expõe o delegado.
A forma como a mulher foi morta é analisada pela perícia. “Possivelmente dopou a mulher e a asfixiou. Dificilmente os outros moradores ouviriam se tivesse havido gritos.”
No esquartejamento, conforme Souza, o assassino usou um equipamento cortante de precisão. “Uma faca muito afiada, um bisturi. Desmembrou a vítima sem quebrar ossos.”
Restos mortais espalhados aos poucos
O matador teria esperado quatro dias para se desfazer dos restos mortais. Na manhã de 13 de agosto, largou sacolas plásticas com partes de pernas e braços na Rua Fagundes Varela, no bairro Santo Antônio. Os dedos das mãos estavam cortados, para dificultar a identificação.
Na noite de 20 de agosto, o publicitário levou o tronco em uma mala preta, nova e lacrada, ao setor de guarda-volumes da Estação Rodoviária de Porto Alegre. Disse que seria retirada por outra pessoa, que teve nome e CPF informados, ligada a uma empresa de Canoas. O destinatário, conforme a investigação, foi escolhido de forma aleatória.
Passados dez dias, o mau cheiro começou a incomodar. Funcionários do setor pensavam que poderia ser comida estragada. Na manhã de 1 de setembro, já estava insuportável. Diante das reclamações e da situação de abandono da bagagem, empregados do setor foram abrir. Depararam com uma barriga humana na mala.
No dia 3, a perícia confirmou que as duas desovas correspondiam aos restos mortais da mesma mulher. Na manhã de sábado (6), moradores do bairro Ipanema viram uma perna boiando no Rio Guaíba e, por volta das 15 horas deste domingo (7), outra parte de perna e um pé foram encontrados na orla perto do Shopping Pontal. “Pela análise inicial dos investigadores, pertencem à vítima deste caso. Estamos aguardando as perícias”, diz o delegado.
O rosto nas imagens
O publicitário poderia ocultar o corpo, mas decidiu se expor na rodoviária. Por outro lado, tomou a precaução de usar máscara cirúrgica, boné e luvas de lã. Para Souza, pode ter sido um ato de desafio à investigação.
“Só tínhamos uma imagem em que o rosto não era reconhecível. A gente foi analisando todas as câmeras da zona norte e eliminando todos os trajetos que poderia ter feito, até chegarmos a um supermercado onde vimos que tirou a máscara. Agora tínhamos o rosto, mas não sabíamos quem era.”

Foto: Reprodução
O vídeo mostra o publicitário no caixa do supermercado, na Rua São Pedro, interagindo gentilmente com funcionários e outros clientes. Estava descontraído, entre sorrisos e brincadeiras. Recém tinha deixado a mala na rodoviária.
O delegado frisa que a investigação exigiu muita caminhada nas ruas, com as fotos em mãos, para conversar com pessoas e conseguir o nome do sanguinário. “Confirmamos o nome no sistema e pedimos a ordem de prisão, que foi concedida em tempo recorde pelo Ministério Público e Judiciário.”

Foto: Reprodução
A divulgação estratégica
A prisão preventiva foi decretada na madrugada de quinta-feira. Os policiais já sabiam que estavam atrás de um foragido com perfil de psicopata. “Outra luta foi identificar onde ele estava. Achávamos que poderia ter fugido.” Jardim tinha mudado de pousada na quarta-feira, ao ver notícias sobre a perícia, porém sem sair da zona norte.
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A estratégia, conforme Souza, foi divulgar a imagem do assassino na rodoviária. Ela foi distribuída à imprensa no início da tarde de quinta. “Certamente ele se achava no controle da situação, acompanhando a repercussão pela imprensa. A divulgação era para fazer com que ele se movimentasse. Deu certo.”
O homem estaria se preparando para fugir, possivelmente do País, quando foi capturado. Souza prefere não passar mais detalhes da prisão para não expor testemunhas.

Foto: Divulgação/Polícia Civil
Vítima será confirmada por DNA
A Polícia pede para que o nome da vítima não seja divulgado enquanto não houver confirmação da perícia. “O corpo estava muito deteriorado. Não há forma de identificação que não seja pelo DNA”, observa Souza. Na sexta-feira (5), um parente da mulher cedeu material biológico para análise.
A namorada tinha 65 anos, trabalhava como manicure e nasceu em Arroio Grande, no sul do Estado. Estava há cerca de cinco meses com o publicitário. O casal se conheceu por ela ser vizinha da pousada. Segundo o delegado, ela acabou indo morar com Jardim.
Motivo ainda é apurado
A Polícia não sabe se houve briga ou outro fator que despertou o instinto assassino. “Talvez no interrogatório ele traga o motivo, mas o que aparenta é ser uma questão da própria personalidade dele, de um criminoso em série, que já tinha matado e concretado e própria mãe.”
Segundo o delegado, há a possibilidade que Jardim vinha usando o dinheiro da vítima. “Ficou com a carteira, cartões bancários e o celular dela, que apreendemos.” Também foi apurado que o publicitário usava perfis falsos, com uso de inteligência artificial, para atrair mulheres nas redes sociais.
Outra barbárie, com a mãe, e soltura polêmica
Matar a mãe de com 13 facadas e concretar o corpo no apartamento onde moravam, no bairro Mont’Serrat, entre abril e maio de 2015, não foi o bastante para o publicitário ficar preso. O motivo seria se apropriar de um seguro de vida de R$ 400 mil do marido da idosa, que havia morrido há pouco tempo. Vilma Jardim tinha 76 anos.
Em novembro de 2018, o Tribunal do Júri condenou o publicitário a 27 anos de prisão. Em 15 de janeiro do ano passado, recebeu o benefício do regime aberto pela então juíza da 1ª Vara de Execuções Criminais de Porto Alegre, Sonáli Zluhan. Jardim ainda não tinha o direito, que foi concedido sob argumento da falta de vagas nos presídios.
Em meio a um imbróglio que envolve a falta de tornozeleiras e fiscalização de presos pelo Estado, Jardim logo evoluiu para prisão domiciliar. Em julho de 2024, ele já não era mais encontrado, mas só passou a ser considerado foragido em fevereiro deste ano.

Foto: Bruna Faraco/TJRS