Ressocialização. Para os detentos do presídio de Canela, a palavra tem um significado na prática. Para quem deseja, há a oportunidade de realizar um trabalho em prol da sociedade e cumprir a pena com ações voltadas à educação, ocupação e suporte psicossocial. O objetivo de tudo isso? Que esses presos não voltem mais a ficar atrás das grades.

Foto: Mônica Pereira/GES-ESPECIAL
Atualmente, o presídio canelense conta com 185 internos, mas com uma capacidade para 80. A superlotação é um dos desafios da gestão. Em fevereiro de 2025, com 280 homens, a Justiça determinou a interdição do local. Por causa das transferências que foram necessárias, uma rebelião aconteceu. Desde lá, após a desinterdição, a busca é para não atingir o teto de 190 detentos.
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Para quem está pagando pelos erros cometidos e não quer passar 22 horas em uma cela, existe a possibilidade de se ocupar de diferentes maneiras.

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A educação é uma delas. Detentos podem voltar a estudar dentro do próprio presídio. Aulas ocorrem quatro tardes por semana, para garantir a formação no ensino fundamental e médio. Com apoio da direção da casa prisional, há até um preso que está cursando o ensino superior a distância (EaD). A cada certificado conquistado, os detentos podem ter remição das penas.
Quem comanda a gestão do presídio é o diretor Rômulo Tomazini dos Santos. Ele ocupa o cargo desde abril do ano passado. Pela experiência em diferentes unidades prisionais do Estado, para ele, o trabalho, a educação e a religião têm prevenido ocorrências violentas entre os detentos.

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“A gente fica três, quatro meses sem ter uma briga entre os presos. Em todo o ano passado, não tivemos nenhum caso de agressão violenta. É um desafio diário, mas que estamos percebendo os resultados”, alega Rômulo, reforçando que a disciplina e a ordem são indispensáveis para esse convívio.
Ligas laborais

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Alimentação, limpeza dos ambientes, lavar roupas, cuidados com as áreas comuns. Todo o trabalho interno do presídio, chamado de ligas laborais, é realizado pelos detentos. E essas são as primeiras ocupações que eles podem ter.
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Rômulo explica que é feita uma análise do perfil do preso e, após isso, há o convite para que ele possa trabalhar dentro da unidade. Para quem aceita, existe o benefício da remição de pena – menos um dia a cada três trabalhados. Além disso, esses internos são afastados das celas da galeria para que não sejam pressionados por outros detentos a cometer alguma irregularidade.
“É um voto de confiança que damos, mas tudo é supervisionado pelos policiais penais, com apoio da nossa psicóloga. Eles ficam nessa avaliação de forma contínua”, frisa o diretor, destacando que o processo é criterioso para evitar qualquer tipo de risco.

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E esse trabalho pode até gerar renda. Há um detento que recebe um salário mínimo para realizar o serviço de padaria. Ele é contratado pela empresa responsável pelo fornecimento de pães à unidade. Em vez de realizar a entrega diária, foi montada a estrutura com forno e os equipamentos necessários para que os pães sejam assados no local e depois distribuídos.
Marcenaria e horta
Em Canela, outros serviços também podem ser executados no presídio. A unidade possui horta e uma marcenaria e está prestes a inaugurar uma área de criação de peixes. Nove apenados possuem autorização judicial para esse trabalho, e há o pedido para mais dois serem incluídos.
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Na marcenaria, camas foram construídas para doação a famílias atingidas pela catástrofe climática de 2024. Móveis também saíram da unidade para mobiliar sedes de entidades sociais e de órgãos de segurança.

Foto: Mônica Pereira/GES-ESPECIAL
Integrando uma campanha de combate à violência contra a mulher, mais de 20 bancos vermelhos estão sendo fabricados. Eles contam com mensagens de reflexão sobre a violência de gênero e têm contatos para denúncia e suporte a vítimas.
Um dos internos que atua na marcenaria tinha o ofício quando estava em liberdade. Para ele, é uma oportunidade de se manter ativo e ocupar o tempo.
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“É agoniante ficar lá (na galeria). Independente, fosse em qualquer outro setor, eu ia trabalhar da mesma forma. É oportunidade, escolha. Poderia ficar lá dentro, escolher ficar lá, mas não. Eu prefiro estar fazendo alguma coisa”, diz. “Depois que eu sair, não quero nunca mais voltar”, completa um outro detento.
Limpeza e construção civil
Oito dos detentos do presídio de Canela possuem autorização para deixar a unidade para trabalhos externos, sob custódia da Polícia Penal.
Eles foram responsáveis, por exemplo, pela limpeza do terreno que receberá o Instituto Federal do Rio Grande do Sul e fizeram reformas no quartel dos bombeiros de Gramado, assim como melhorias em escolas, durante o período de férias.
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“São presos que estão trabalhando para a sociedade”, assegura o diretor prisional. “Nós queremos participar da comunidade e cooperar junto com as outras forças de segurança e o Judiciário. Com os pedidos que temos recebido, vemos que esse trabalho prisional é possível de ser ampliado e que traz benefícios”, acrescenta Rômulo.

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Ele acentua que são presos do regime fechado, diferentemente do que acontece em outras unidades, em que somente presos do semiaberto são utilizados para esses serviços. “Desses detentos que passaram pelos procedimentos de trabalho conosco, nenhum deles voltou depois que ganhou liberdade. A gente percebe que está funcionando, que eles estão se inserindo de novo na comunidade”, frisa.
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Um dos desejos do diretor do presídio é aumentar o número de presos trabalhando. Por isso, ele está buscando recursos para construir um pavilhão de trabalho no espaço. Com isso, a mão de obra pode ser contratada por empresas.
No Estado, há unidades prisionais que comportam linhas de produção de diferentes setores, como indústrias têxteis, calçadistas, metalúrgicas, de reciclagem de resíduos eletrônicos, alimentícia, de produtos pet e de embalagens.
90 presos monitorados
Aproximadamente 90 presos são monitorados pela Polícia Penal, por meio de tornozeleiras eletrônicas. Alguns deles tiveram a progressão de pena para o semiaberto e precisam comprovar que estão trabalhando ou estudando.
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Para facilitar essa busca por um emprego, a Secretaria de Obras de Canela contratou seis apenados, que ganham salário para cumprir as funções. Com a iniciativa tendo um resultado positivo, a expectativa é que mais quatro possam ter esse trabalho garantido ao sair do presídio. “Nossa ideia é ampliar essas ações de trabalho para que a ressocialização não fique só no papel”, pontua Rômulo.
Fortalecimento da segurança
Com déficit de policiais penais, a tecnologia tem fortalecido a segurança no local. São quase 40 câmeras de alta definição instaladas e com capacidade de armazenamento das imagens por um mês. Todo o sistema funciona, inclusive, sem energia elétrica.
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Localizado em uma área urbana de Canela, o presídio recebeu reforço no cercamento, para evitar que objetos possam ser arremessados no espaço ou até mesmo levados por drones.

Foto: Mônica Pereira/GES-ESPECIAL
Como forma de aumentar a capacidade, Rômulo adianta que, por meio de uma logística interna, deve ampliar em 30 as vagas dentro da casa prisional. Hoje, a unidade possui 12 celas, dez delas dentro da galeria e outras duas separadas – para presidiários condenados por crimes sexuais – e outra para quem está com alguma condição de saúde.
Outra medida adotada de forma corriqueira é a revista geral nas celas. O presídio canelense é sede do canil da 7ª Delegacia Penitenciária Regional. Assim, os cães policiais – K9 – reforçam essas ações, atuando nas operações, intervenções e na busca de materiais ilícitos.
Conforme Rômulo, quando algum item irregular é encontrado, todos os detentos daquela cela respondem por processos administrativos disciplinares e podem sofrer penalidades.
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