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ECONOMIA

Acordo Mercosul-UE entra em vigor nesta sexta-feira (1º): E agora, como ficam as exportações gaúchas?

Veja reflexos já na fase inicial do tratado; setor coureiro-calçadista está otimista

Juliana Dias Nunes
Publicado em: 01/05/2026 às 08h:30 Última atualização: 30/04/2026 às 17h:42
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O pilar comercial do acordo entre o Mercosul e a União Europeia (UE) entra em vigor, de forma provisória, nesta sexta-feira (1º) e deve gerar impacto direto nas exportações brasileiras. O acordo completo ainda precisa ter a aprovação de todos os 27 parlamentos da UE, um processo que pode levar anos. De toda forma, no Brasil, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que mais de 80% dos produtos vendidos pelo Brasil ao bloco europeu terão tarifa de importação zerada já nesta fase inicial, incluindo materiais industriais e agrícolas.

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Senado aprova acordo entre Mercosul e União Europeia | abc+



Senado aprova acordo entre Mercosul e União Europeia

Foto: Agência Brasil

O Rio Grande do Sul será beneficiado já na “largada” do tratado comercial. O setor coureiro-calçadista também está otimista com este início e com as vantagens a médio e longo prazos.

Segundo a Fiergs, dos US$ 2,8 bilhões exportados pelo Estado para UE, cerca de 43% terão isenção tarifária nesta primeira fase, o equivalente a US$ 1,2 bilhão. São 500 itens incluídos imediatamente, que se somam a outros 400 já vendidos sem imposto para o bloco europeu.

Em quatro anos, 93% (US$ 2,5 bilhões) da pauta exportadora do Rio Grande do Sul ao bloco estará isenta, enquanto o cronograma completo de desgravação dos 1,5 mil produtos exportados se estende por 15 anos.

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Por etapas

Para itens considerados mais sensíveis, a redução será feita de forma gradual. Em até 10 anos na União Europeia, em até 15 anos no Mercosul e em alguns casos específicos, como novas tecnologias, o prazo pode chegar a 30 anos.

O decreto do acordo foi assinado pelo presidente Lula na última terça (28) e era algo esperado, pelos dois blocos, por mais de duas décadas. O governo brasileiro ainda precisará regulamentar detalhes como a distribuição de cotas de exportação entre os países do Mercosul.

Entidades empresariais dos dois blocos envolvidos também devem criar um comitê que irá acompanhar a aplicação do acordo.

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A indústria gaúcha

A Fiergs estima que, em um horizonte de 15 anos, o acordo entre Mercosul e União Europeia tem potencial de acrescentar 4,6% ao crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), cerca de R$ 31 bilhões. A Unidade de Estudos Econômicos do Sistema Fiergs projeta que as exportações industriais gaúchas para o bloco europeu podem crescer cerca de US$ 801,3 milhões no período.

Entre os segmentos da Indústria de Transformação, os mais beneficiados tendem a ser Tabaco, Químicos, Couro e calçados, Alimentos e Celulose e papel. O avanço das vendas industriais no longo prazo também deve impactar o mercado de trabalho formal, com estimativa de geração de 31 mil novos empregos na Indústria de Transformação gaúcha.

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Em 2025, a União Europeia foi o segundo principal destino das exportações gaúchas entre os blocos econômicos, com US$ 2,8 bilhões, o equivalente a 13% do total exportado. Também foi a quarta principal origem das importações, com US$ 1,4 bilhão (11,1% do total). No mesmo ano, o Rio Grande do Sul ocupou a sexta posição entre os estados brasileiros que mais exportaram para o bloco e a oitava entre os que mais importaram

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Itens gaúchos mais impactados na fase 1:

Dos 500 itens enviados pelo RS e que entraram imediatamente com tarifa zero na União Europeia, os 10 mais impactados são:

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•Partes superiores de calçados e seus componentes, exceto contrafortes e biqueiras rígidas
•Outras partes exclusiva ou principalmente destinadas aos motores de pistão, de ignição por centelha
•Outros óleos de petróleo ou de minerais betuminosos e preparações, exceto desperdícios
•Couros e peles acamurçados (incluída a camurça combinada)
•Flaps, protetores, bandas de rodagem, para pneus de borracha
•Couros e peles, incluídas as ilhargas, de bovinos ou de equídeos, preparados após curtimenta ou secagem, divididos, com a flor
•Magnetos; dínamos-magnetos; volantes magnéticos, para motores de ignição por centelha ou por compressão
•Árvores (veios) de transmissão, incluídas as de excêntricos (cames) e virabrequins (cambotas) e manivelas
•Peptonas e seus derivados; outras matérias proteicas e seus derivados; pó de peles
•Pneus novos de borracha dos tipos utilizados em automóveis de passageiros

Setor calçadista

Ressaltando o potencial do bloco europeu, que responde por cerca de 40% das importações de calçados do mundo, o presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Haroldo Ferreira, destaca que o acordo comercial será benéfico para o setor, com ganhos de médio e longo prazos.

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“Em termos tarifários, ele abre espaço para ganhos competitivos ante a concorrência internacional, predominantemente asiática, ou equiparação tarifária – ao fim da desgravação – com países com os quais a União Europeia já tem acordo vigente, caso do Vietnã”, explica Ferreira.

O sapato em couro, por exemplo, principal exportador no segmento pelo Rio Grande do Sul, deve obter isenção total em até sete anos.

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O setor de componentes para calçados também comemora a validação da medida. O gestor de Mercado Internacional da Associação Brasileira de Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos (Assintecal), Luiz Ribas Júnior, destaca que a indústria europeia de fabricação de calçados, fortemente concentrada em polos na Itália, Portugal, Espanha e Leste Europeu, demanda produtos como adesivos, compostos poliméricos, solados, químicos para couro, tecidos tecnológicos, produtos técnicos, palmilhas, partes de calçados em geral, entre outros produtos.

“A desgravação gradual das tarifas de importação de componentes, hoje de até 17%, consiste em um diferencial competitivo importante, ainda mais se somada à demanda maior daqueles países por materiais sustentáveis”, explica.

Ribas Júnior também lembra que a indústria brasileira de materiais tem mais uma vantagem: é a única do setor no mundo que possui uma certificação de sustentabilidade, o Origem Sustentável.

“A integração sistêmica das exigências ambientais afeta o modelo de negócios de baixo custo asiático, fundamentado em mão-de-obra menos onerosa e flexibilização ambiental. Ao combinar o livre comércio proporcionado pelo novo acordo com a capacidade instalada do Brasil de produzir materiais verdes e atóxicos, o mercado europeu inclina-se naturalmente a migrar suas aquisições para o Mercosul”, conclui.

Exportações de couro

A União Europeia é responsável pela compra de cerca de 20% de toda a exportação brasileira de couros e peles (foram US$ 214,7 milhões em 2025 dentro de um universo de US$ 1,132 bilhão). A expectativa do Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB) é que haja grandes reflexos no setor de couros do Brasil, especialmente pela possibilidade de estímulo às exportações dos tipos semi e acabado.

O CICB explica que as exportações brasileiras de couros e peles para o mercado da União Europeia estão no grupo zero ou quatro de desgravação. Ou seja: a alíquota do imposto de importação será zerada imediatamente ou em até quatro anos após a entrada em vigor do acordo, dependendo do código SH6 (seis primeiros dígitos) da NCM (Nomenclatura Comum do Mercosul).

“Com isso, os clientes europeus do setor de couros deverão enquadrar na correta classificação tarifária os produtos importados do Brasil, verificando as melhores alternativas considerando prazos e condições de desgravação. Cabe ao exportador brasileiro acompanhar junto ao cliente, de forma a buscar as melhores condições comerciais”, avalia Rogério Cunha, Gestor de Inteligência Comercial do CICB.

Possível triangulação

Os envios para o mercado europeu cresceram no ano passado. Conforme dados elaborados pela Abicalçados, a indústria brasileira exportou 17,4 milhões de pares de calçados para o bloco europeu em 2025, 5,2% mais do que no ano de 2024. Embora o setor calçadista veja o acordo com otimismo, há também um sinal de alerta.

De acordo com a entidade, há o receio de que países da União Europeia possam ser utilizados como plataforma para exportações de produtores extra-bloco (triangulação), especialmente países asiáticos, que poderiam buscar aproveitar o benefício tarifário do acordo.

Pensando em mitigar esse risco e, ao mesmo tempo, criar oportunidades às exportações brasileiras, foram pactuadas regras de origem.

A Abicalçados explica que, de forma simplificada, para calçados de menor valor, exige-se conteúdo regional mínimo de 60% (somando insumos nacionais e custos produtivos na área do acordo), sendo vedada a utilização de cabedais importados de países não participantes.

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A agricultura

Um dos setores que será fortemente beneficiado é a agricultura, pilar da economia gaúcha. O assessor de Relações Internacionais da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), Renan Hein dos Santos, a União Europeia é o segundo principal destino das exportações agrícolas do Estado e um dos principais fornecedores de insumos do agronegócio.

“A partir do dia 1º de maio, 39% dos produtos do agro já ficam com a tarifa, o imposto de importação, zerada, representando mais de 940 produtos. Isso torna nosso produto mais competitivo, mais baratos, dentro da União Europeia. As expectativas é de que haja um aumento de fluxo de exportações pra UE já neste primeiro momento, mas muito mais estrutural. Há um prazo para a desgravação, que é o cronograma em que alguns produtos entram pra chegar nesta tarifa reduzida. Isso cria uma previsibilidade para fazer negócios com a União Europeia. Existem produtos muito importantes pra gente que não tem liberalização tão forte, em que há volumes específicos e no que tu preencheu deixa de ter o benefício, como carne bovina e aves. Mas de maneira geral, é muito positivo.”

Oportunidades e ameaças

A indústria de máquinas e equipamentos vê o acordo de forma ambígua, com oportunidades e ameaças. Para o presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Máquinas e Equipamentos para os Setores do Couro, Calçados e Afins (Abrameq), André da Rocha, o Brasil possui pontos de fragilidade, que incluem os custos do capital, das matérias-primas e de logística muito superiores aos praticados na UE.

“Acreditamos que acordos comerciais e integração com cadeias produtivas e mercados são o caminho para aumentar a competividade e o desenvolvimento da indústria brasileira, porém temos ‘tema de casa’ para ser feito que exige ação rápida e com profundidade para evitar a evasão de indústrias, o que já vem acontecendo nos últimos anos”, observa.

O diretor da Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Novo Hamburgo, Campo Bom, Estância Velha, Dois Irmãos e Ivoti (ACI-NH/CB/EV/DI/IV), Fauston Saraiva, acredita que a indústria seria melhor atendida se houvesse também atenção “dentro de casa”.

“Não adianta benefício de taxas e isenções de importações se o próprio governo não auxilia as indústrias brasileiras. Acordo ajuda, mas precisamos olhar para o ajuste fiscal e a redução da carga tributária. Nossos principais parceiros comerciais estão na China e nos Estados Unidos, Europa é mais um. Temos que concorrer com mercado chinês e retomar as coisas com mercado americano, especialmente em segmentos importantes para nossa região como o calçado.”

Metalmecânico

O setor metalmecânico da região avalia o tratado como positivo, especialmente para a inovação no mercado brasileiro.

“As máquinas da Europa são muito evoluídas e entrarão aqui sem o imposto de importação. Tem a questão de que as nossas indústrias terão que se atualizar para termos uma concorrência mais forte. Para empresas que já importavam máquinas do mercado europeu tem a vantagem de modernizar seu parque industrial. E o setor é muito fornecedor do agro, incluindo o Vale do Sinos. Claro, que alguns produtos levarão mais tempo para a isenção, que é gradativa, alguns devem levar até 10 anos”, observa o presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico e Eletrônico de São Leopoldo (Sindimetal-RS), Sergio Galera.

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