Precisar de uma cirurgia já é uma aflição, mas não saber quando conseguirá fazer é uma angústia ainda maior. Pacientes e seus familiares reclamam da demora para a realização de exames e procedimentos cirúrgicos no Hospital Universitário de Canoas (HU). Demora que não se estende por dias, mas meses.
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Foto: Paulo Pires/GES
Falta de equipamentos, insumos e médicos são as razões por trás da longa espera. E muitas vezes, não é possível esperar. A família de Jorge Marco Freitas, 71 anos, lamenta que não houve tempo para ele fazer a cirurgia de ponte de safena, que aguardava há pelo menos quatro meses. Ele morreu na última terça-feira (27) enquanto aguardava o procedimento.
“Deixaram esperando muito tempo, deixaram ele definhar, complicar cada dia mais. Meu mundo acabou, minha luta acabou”, desabafa a filha Ludmila dos Santos, 45 anos, que, desde o ano passado brigava para resolver a situação do pai.
Maria Lúcia da Silva, também de 71 anos, também aguarda por um exame no Hospital Universitário. Ela precisa fazer uma Colangiopancreatografia Retrógrada Endoscópica (CPRE) e espera desde novembro. A idosa faz tratamento contra o câncer no Hospital Nossa Senhora das Graças (HNSG) e precisa do exame.
O cenário é desgastante não só para os canoenses, que não confiam na saúde da cidade, mas também para os outros 150 municípios que dependem do HU. “As queixas feitas pelos pacientes são totalmente verdadeiras. A desassistência acontece até em procedimentos simples”, afirma o presidente do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), Marcelo Matias.
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Os problemas estão no básico
Quando se pensa num hospital, imagina-se equipamentos, aparelhos, bisturis, tesouras, luvas, máscaras e por aí vai. Mas é exatamente o essencial para o trabalho dos médicos, enfermeiros e técnicos que fica faltando.
Profissionais relatam escassez de aventais, luvas, folha de ofício e outros materiais importantes para o serviço. As questões são de conhecimento do colegiado do HU, que buscou resolver as demandas, conforme relatório de reunião realizada em novembro.
Além disso, equipamentos de hemodinâmica e máquinas utilizadas na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) e no Centro de Diagnóstico de Imagem (CDI) também já apresentaram problemas e ficaram fora de operação.
Mas outro fator é acrescentado à lista de reclamações dos médicos, de acordo com o Simers: a falta de experiência de alguns profissionais. “Estão colocando médicos recém-formados em posições que exigem mais experiência. Não só pelo serviço, mas pela tomada de decisão. Veja, não é nada contra. Só precisamos de médicos com residência”, destaca o presidente do Simers.
Demora comprometeu saúde do Jorge
A angústia da família de Jorge Marco Freitas já perdurava há mais de quatro meses, porém o procedimento seguia sem data para acontecer. O hospital chegou a dar uma previsão, extraoficialmente, de que poderia ser realizada no final do ano, mas não aconteceu.

Foto: Arquivo Pessoal
O principal impedimento era a falta de profissionais necessários para o procedimento. Em novembro, o colegiado do hospital debateu o assunto, destacando a dificuldade de ter anestesistas para cirurgias cardíacas. O problema afeta cerca de 20 pacientes internos do HU, conforme cálculo apresentado na ata da reunião.
Enquanto isso, o quadro do paciente se agravou. Ludmila, que já temia pela saúde do seu pai, agora sofre com a morte dele. “Lá dentro e desumano que eles fazem com os pacientes”, desabafa.
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“Sem o procedimento, ela pode morrer”
A situação também é crítica para a Maria Lúcia da Silva, 71, apresentada no início da matéria, que está internada HNSG desde novembro. Ela trata um câncer de fígado, consequência de uma metástase de câncer de cólon que vem tratando desde 2020.
Mas precisa do Hospital Universitário para fazer o exame CPRE, já que é o único local que oferece. “Ela está com obstrução de canal biliar, pois o tumor obstruiu a região. O exame é para colocação de stent (mola) para desobstrução do canal e da biles acumulada no organismo”, conta a filha, Juliana Carneiro.
Na falta do exame, a canoense precisou paralisar a quimioterapia, relata a filha. “Sem fazer esse procedimento ela vai a óbito, não vai aguentar muito tempo. Ela está com o tratamento interrompido todo esse tempo.”
Segundo Juliana, o CPRE não está sendo realizado no HU – o que traz mais aflição. “Tentei de tudo pra transferir ela pra outro hospital de forma administrativa, dentro das regras do SUS, mas foi impossível conseguir”, afirma.
A família da paciente chegou a conseguir uma liminar para a realização do exame no hospital ou em clínica particular, mas já venceu. “Nossa advogada entrou com nova petição para tentarmos convencer a juíza que a mãe faça o exame e restante do tratamento em Porto Alegre, visto que em Canoas está um caos”, comenta.
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Não tinha equipamento
A desassistência é comprovada por um balanço dos serviços feitos em novembro de 2025. Nele, está indicado que nenhum exame de CPRE foi feito no período no Hospital Universitário – a meta era realizar dez. O documento foi elaborado pela associação e entregue à Secretaria Municipal de Saúde de Canoas (SMS).
O exame é essencial para o diagnóstico e tratamento de coledocolitíase, colangite, pancreatite e neoplasias das vias biliares. “A não realização desses procedimentos em tempo oportuno pode levar ao agravamento do quadro clínico”, afirma a SMS em ofício ao Ministério da Saúde, em outubro. O documento é uma proposta de incremento no repasse para procedimentos de média e alta complexidade – categoria do exame.
Um dos equipamentos necessários, conforme o protocolo de tratamento, é o de hemodinâmica. “O aparelho permite a realização de exames e intervenções minimamente invasivas com baixa radiação e contraste, como neurocirurgias, cirurgias vasculares e cardiologia intervencionista, como cateterismos cardíacos e angioplastias”, explica o Ministério da Saúde.
E o HU tem dois: um está parado desde setembro de 2025, enquanto que o outro passa por reparos constantemente. No entanto, o equipamento de hemodinâmica voltou a operar no dia 13 de janeiro para atender a demanda, conforme informado à imprensa.
De acordo com a Juliana, filha da paciente Maria Lucia, a ouvidoria do hospital e a SMS chegaram a entrar em contato para avisar que o exame seria feito no dia 14 de janeiro. No entanto, foi remarcado para quarta-feira (28), mas não aconteceu. A nova previsão é a próxima segunda-feira (2).
“Esta é a promessa mais recente que temos. Mas estamos céticas. Segunda-feira não costumam fazer este exame e é feriado municipal em Canoas”, aponta Juliana.
Há mais de 70 dias no hospital, a filha da paciente também sofre com a saúde da mãe. “O tumor da minha mãe aumentou muito, é um tempo absurdo esperando. Nem sabemos se vai ser possível colocar o stent para desobstrução do hilo hepático dela, para liberar a biles que está obstruída”, comenta.
Espera também é longa para o Paulo
Mesmo os pacientes que, em tese, não precisam mais do HU não conseguem sair. O Paulo Ricardo Borges Dias, 52, precisa ser transferido para tratar de um problema grave no coração. O paciente necessita de um Cardiodesfibrilador Implantável, equipamento conhecido como CDI.
O aparelho impede que ele tenha uma morte súbita cardíaca, após ter infartado. Segundo um atestado médico, a colocação do CDI é urgente já que o paciente corre risco de vida. No entanto, a transferência segue incerta.
A movimentação precisa ser feita pelo Estado, através do sistema do Gerint, argumenta o hospital. “O procedimento que o paciente precisa não é habilitado no HU, o que exige uma transferência para outro hospital. Desde que foi recebido na instituição, o caso foi encaminhado com a devida urgência e presteza.”
Já a Secretaria Estadual de Saúde (SES) não comentou o caso em detalhes. Nas últimas semanas, Dias foi informado que toda a sua documentação estava aprovada para a transferência, mas que seguia sem previsão.
Nesta quarta-feira (28), o paciente conseguiu um mandado para que diferentes hospitais fornecem um orçamento detalhado e completo para a realização do CDI. Mas ainda não conseguiu a transferência.
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Não existe trabalhar sem receber
Junto com a falta de insumos e problemas com equipamentos, o pagamento dos médicos também uma questão conhecida. Em 2025, os profissionais fizeram restrições e suspensões no atendimento.
Para o presidente do Sindicato Médico do RS, Marcelo Matias, a situação é bem simples de entender. “Não existe assistência sem os médicos e eles não estão recebendo. Ninguém pode trabalhar de graça. No meu entender, é uma calamidade. Começa a falta profissional para fazer as escalas. Todo mundo tem atraso. Não tem segurança para trabalhar, porque também faltam insumos, e para receber”, afirma.
Então, onde estão os recursos para os salários, atrasos e rescisões? Segundo Matias, a Prefeitura de Canoas faz os repasses dentro do plano operativo – que reúne os serviços que foram contratados. “Mas eles não estão sendo entregues. A ASM não está repassando para as equipes”, ressalta.
Contrato milionário
Conforme demonstra o Portal da Transparência, foram pagos R$ 15,4 milhões, somente em dezembro, à Associação Saúde em Movimento (ASM), responsável pela gestão do HU. O valor mensal previsto no contrato, assinado em dezembro de 2024, gira entorno de R$ 15,6 milhões.
Mas as cifras devem mudar. A proposta prevista no contrato é de revisão seguindo o IPCA acumulado de 2023 a 2025, ficando em 12,04%. No entanto, como a Prefeitura de Canoas passa por um período de contingenciamento, foi oferecido uma porcentagem menor de 9,91%.
Com isso, o valor mensal pode chegar a R$ 17,1 milhões, “visando garantir o seu equilíbrio e exequibilidade, fortalecendo e qualificando a rede de saúde do município, a fim de atender as necessidades sociais em saúde da população, consoante às diretrizes do Sistema Único de Saúde”, justifica a pasta.
Federalização é o caminho?
No final de dezembro, o HU aderiu ao programa federal Agora Tem Especialistas com a proposta de aumentar a oferta de procedimentos cirúrgicos. A iniciativa, a ser gerida pelo Grupo Hospitalar Conceição (GHC), deve realizar 1,2 mil cirurgias ao mês. No entanto, ainda não há data para o início do serviço.
Na cerimônia de assinatura da parceria, o presidente do Simers entregou um ofício para o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, pedindo pela federalização da gestão do hospital. As conversas incluem o superintendente do GHC, Gilberto Barichello.
“O problema do HU é da Prefeitura de Canoas, do governo do Estado e do governo federal. Precisa ter recursos contínuos e gestão. Por isso, nós queremos manter o assunto da federalização. São mais recursos e experiência para fazer o hospital funcionar”, argumenta.
O hospital não atende somente Canoas, mas também cerca de 150 municípios. “Resolvendo a questão do HU, resolve a questão de saúde da Região Metropolitana. Esteio, Cachoeirinha, Sapucaia também são cidades afetadas”, reforça.
“Temos o exemplo do Conceição, Fêmina, Cristo Redentor. Eu acredito que o problema seria resolvido sim”, completa.
Promessa de avanços
Em entrevista ao jornal no início do mês, o prefeito Airton Souza afirmou que o hospital deve viver “um novo momento”. “Iremos colocá-lo funcionando a pleno com os 620 leitos. Nem na inauguração nós conseguimos. Nós vamos conseguir anunciar ainda no mês de janeiro esse feito em parceria com o governo federal e com o Grupo Hospitalar Conceição.”
O prefeito também destacou que a saúde do município deve receber novos investimentos em breve. A resposta foi dada após questionamento sobre a viagem feita a Brasília em busca de recursos para a área.
“Estamos esperando realmente oficializar o empenho para podermos anunciar. Esse grande movimento, onde a Câmara se uniu com o Executivo, nós fomos juntos a Brasília, vai surtir resultado. Acredito que nos próximos dias vamos fazer um anúncio oficial desse aporte de recurso”, ressalta.
O que diz o Hospital Universitário
A reportagem entrou em contato com o Hospital Universitário de Canoas no dia 14 de janeiro, solicitando esclarecimentos sobre pagamentos dos profissionais, repasses da Prefeitura de Canoas, reajuste no contrato, falta de insumos e dificuldade de contratação. Além disso, foi pedido um posicionamento sobre a situação dos pacientes mencionados na matéria.
Procurado pela reportagem, a assessoria de comunicação do Hospital Universitário respondeu reclamando que a situação da instituição tem sido tratada de forma incoerente e com viés tendencioso. “Gostaríamos de entender qual é a real intenção desta matéria. Caso seja necessário, nossa diretoria poderá agendar uma reunião com vocês para tratar do assunto de forma mais objetiva e alinhada”, diz a nota.
O que diz a Prefeitura de Canoas
O reportagem também entrou em contato com a Prefeitura de Canoas para mais informações sobre a situação do Hospital Universitário. Foram enviados questionamentos sobre as reclamações, a avaliação da gestão da ASM e repasse de recursos. Não houve retorno.