O ano de 2025 foi de muitos desafios para o governo de Canoas. Assumindo a Prefeitura pela primeira vez, Airton Souza teve que lidar com diversas questões, como as contas públicas, ações de recuperação pós-enchente e problemas nos hospitais. Mas a principal delas é a confiança na cidade, tanto de quem vive aqui, quanto de quem olha com interesse para o terceiro maior PIB do Estado.

Foto: Nicole Goulart/Especial
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Para os canoenses, uma das principais medidas foi a manutenção do passe livre – vigente desde a enchente. O ônibus de graça resultou em um aumento no número de usuários, sendo mais de 14,5 milhões de passageiros entre janeiro e novembro de 2024.
Atualmente, o passe livre segue até o dia 28 de fevereiro, mas a proposta é continuar. “É um programa que o governo pretende torná-lo definitivo. Nós estamos fazendo os ajustes, buscando os meios, de onde nós vamos tirar os recursos”, afirma o prefeito Airton Souza.
O chefe do Executivo tratou desse e de outros assuntos em uma entrevista exclusiva nesta segunda-feira (5), primeiro dia útil de 2026. Airton Souza fez um balanço de como foi o ano passado e como planeja este novo ano.
Confira a entrevista exclusiva
Diário de Canoas (DC): Qual a avaliação o senhor faz de 2025?
Prefeito Airton Souza: Foi um ano de bastante batalha, principalmente porque nós tínhamos a reconstrução. Estávamos saindo da enchente, tinha muita atenção ainda nas pessoas, principalmente do lado do que sofreu com enchente. Era a preocupação e o temor sobre a possibilidade nova enchente.
Então, era destravar os processos, colocar todos os processos em andamento, as obras em andamento, a liberação dos recursos. Esse foi o nosso maior desafio em 2025: dar tranquilidade para as famílias, para cidade, para as pessoas voltarem a acreditar. Os investidores voltarem a acreditar na cidade.
DC: E para 2026, o que o senhor planeja?
Airton: Em 2026 já vamos começar a colher resultados do nosso primeiro ano de gestão. Tanto eu quanto o Rodrigo [Busatto, vice-prefeito] tínhamos muito foco em organizar a equipe, organizar a casa e elencar projetos.
Agora nós vamos entregar já uma obra da reconstrução. Somos a primeira cidade do Rio Grande do Sul a entregar uma obra de reconstrução que é o Muro da Cassol. Temos outras obras bem adiantadas que é o muro de proteção do bairro Niterói, que já passou dos 80%. Temos também a proteção da Mathias Velho, que já chegou nos 60%. Estamos fazendo o dique do Mato Grande, Rio Branco e Fátima.
Temos o HPSC [Hospital de Pronto Socorro de Canoas]. Hoje a gente vê na rede social que mais se fala no HPSC do que nas próprias obras de reconstrução. Nós queremos entregá-lo de volta pra comunidade até o final do ano. Também foi um outro desafio que nós enfrentamos em 2025, porque os projetos estavam em desacordo com as exigências da Caixa Econômica Federal, que é a que está a aportando os recursos. Tivemos muito trabalho para ajustar os projetos do HPSC. No final do ano conseguimos liberar realmente para obra andar em ritmo mais acelerado, para que nós cumpramos com o objetivo de entregá-lo pra comunidade de volta no final de 2026.
DC: Já que a gente está falando da saúde, acha que 2026 vai ser um ano que a gente vai poder dar um exemplo na saúde? Quais são os planos?
Airton: Sim, eu acredito muito nisso. Nós melhoramos muito a gestão das UPAs com a ação que nós fizemos no mês de setembro, de trocar a empresa. Tiramos a empresa que estava e trouxemos outra. Com isso, não recebo mais reclamação das UPAs.
Temos ainda reclamação nos hospitais em função da grande demanda que tem. Mas nós vamos melhorar. Já melhoramos bastante o Gracinha [Hospital Nossa Senhora das Graças], mas acredito que vai ser sempre um sufoco porque nós atendemos recebemos muita gente fora de Canoas.
E para o Hospital Universitário se desenha assim um novo momento. Iremos colocá-lo funcionando a pleno com os 620 leitos. Nem na inauguração nós conseguimos. Nós vamos conseguir anunciar ainda no mês de janeiro esse feito em parceria com o governo federal e com o Grupo Hospitalar Conceição. É uma ação que está bem encaminhada para termos uma grande melhora no atendimento. Já vai ter resultados com o Agora Tem Especialista, que é o programa do governo federal. Então nós estamos bem otimistas com relação à saúde.
Também fizemos uma capacitação com os nossos agentes de saúde através da Fundação de Saúde, com os nossos gestores de unidades das UBSs para estarem mais preparados para atender a nossa comunidade. Também entregamos em 2025 uma unidade de saúde lá no bairro João de Barro. Isso sempre funcionou dentro de uma associação. Hoje não, hoje tem a sua sede própria, uma unidade porte 3.
Estamos em construção de unidade de porte 3 no bairro Rio Branco. Ali no bairro, agora na metade de dezembro, entregamos a reforma uma unidade na Rua Engenheiro Chang. Estamos construindo uma porte 3 no bairro Estância Velha.
E estamos com recurso já garantido para uma unidade porte 3 no bairro Matias Velho e mais uma unidade de porte 3 no bairro Niterói também. Isso já estamos com recurso garantido na conta. Estamos terminando o projeto para fazer a licitação. Acredito que vai ser um avanço bem significativo para a saúde.

Foto: Paulo Pires/GES
DC: Falando em recurso, ano passado o senhor foi para Brasília junto com uma comitiva de vereadores atrás de recurso. Deu certo?
Airton: Sim, estamos em vias de anunciar um recurso bem significativo para a saúde. Estamos esperando realmente oficializar o empenho para podermos anunciar. Esse grande movimento, onde a Câmara se uniu com o Executivo, nós fomos juntos a Brasília, vai surtir resultado. Acredito que nos próximos dias vamos chamar todos os vereadores e fazer um anúncio oficial desse aporte de recurso.
DC: Outro assunto importante para o governo e para os moradores é a questão das moradias. Como o município avançou nisso?
Airton: É uma pauta que para mim é muito especial. Eu e o Rodrigo, no nosso plano de governo, nós colocávamos que iríamos conseguir construir 6 mil moradias para os canoenses. Isso nós atingimos no primeiro ano de governo.
Só ali são 1,5 mil residências. Nós já temos 400 apartamentos em andamento: 200 na Rio Branco, 200 no Niterói. Temos autorização para 800 na Rua Nazário e mais 700 na Olaria. Além de mais de 2,2 mil moradias pelo Compra Assistida.
A nossa Secretaria de Habitação fez os encaminhamentos, articulou com a população. Conseguimos então praticamente fechar já 6 mil moradias no primeiro ano de governo. Então isso vai ser um grande avanço, vai gerar emprego no momento da construção, vai movimentar a economia da nossa cidade. Um grande feito que considero assim de extrema importância pra nossa cidade.
DC: Antes, estávamos de recursos para o município que estamos passando por um período de contingenciamento. Como estão as contas da cidade?
Airton: Nós pegamos o município com a questão financeira bastante bagunçada. Nós vínhamos de um déficit que era de mais de R$ 400 milhões. Agora, nós temos um déficit projetado para o ano que vem de R$ 250 milhões. Então, nós já conseguimos reduzir mais de R$ 150 milhões de déficit no nosso orçamento.
Evidentemente que nós vamos ter que continuar com a controle das finanças. Haja vista que estamos fazendo uma economia até nos carros alugados, temos itens básicos, para a conscientização do pessoal para realmente nós colocarmos a cidade em movimento.
Somos a cidade hoje com maior retorno do ICMS. Isso quer dizer que a economia do nosso município está em movimento, a cidade é atrativa para grandes investimentos e pequenos investimentos também. Queremos trazer mais, mas não queremos descuidar de quem já está aqui construindo a história, ajudando a economia a ser grande.
Queremos trazer um grande hotel pra cidade, um centro de eventos, modernizar a Rua Coronel Vicente para com isso também levar investimento pro lado de lá. O lado oeste precisa realmente de uma retomada, um aquecimento da economia. Tem grandes coisas.
Depois de muitos anos, em parceria com o Dnit [Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes], tiramos do papel a obra do túnel da Domingos Martins. Está em andamento a obra com previsão de entrega para o início do ano que vem. Uma grande obra de mobilidade.
Também estamos trabalhando em um possível projeto para alteamento do trem aqui na parte central. Então tem grandes projetos aguardando a cidade.
DC: Falando em grandes projetos, o que o município oferece de incentivo?
Airton: Nós temos a lei do Fundecan, que é uma lei própria do município, que é justamente para atrair investidores, empresas. A empresa pode ganhar desde o terreno, tem que apresentar um projeto. Tem isenção no ISSQN da construção e depois tem mais 10 anos de isenção no IPTU.
Tem vários incentivos que são atraentes. Por exemplo, trazer uma empresa hoje, uma área de terra de cinco hectares custa muito dinheiro em Canoas. Estamos trabalhando com essa lei para atrair empreendimento e investidores.
DC: Voltando à questão das contas, os empréstimos vão ajudar o município?
Airton: Para nós colocarmos obras em andamento, tirarmos obras do papel, recuperarmos as nossas ruas, hoje o município não tem recursos próprios para fazer qualquer investimento na infraestrutura.
Nós precisamos melhorar, fazer a rede de drenagem, a rede pluvial. Nós temos que desobstruir, limpar, nós temos que recuperar as vias.
Nossa cidade está toda remendada. Os buracos que nós estamos tapando, fica um remendo. Tem muita rua desnivelada e é ruim de andar. Então, é um projeto que nós precisamos de aporte de recurso.
Por exemplo, nós precisamos terminar a Perimetral Oeste que liga o bairro Mathias Velho ao Rio Branco, uma importante via para escoamento do fluxo de veículos. Precisamos ali mais de R$ 40 milhões. Como é que nós vamos fazer? Somente através do financiamento. Se nós não buscarmos os financiamentos, nós não teremos recursos próprios para fazer nada na cidade.
DC: E sobre o passe livre? Ele vai até o final de fevereiro, mas como é que vai ser depois?
Airton: É um programa que o governo pretende torná-lo definitivo. Nós estamos fazendo os ajustes, buscando os meios, de onde nós vamos tirar os recursos. No final de fevereiro, se Deus quiser, se nós tivermos os mecanismos de recurso, nós vamos torná-lo definitivo.
DC: E vai haver alguma revisão na tarifa, no subsídio que é pago?
Airton: Sim, estamos vendo justamente isso. Hoje nós estamos com um valor aquém daquilo que nós estamos pagando hoje. Realmente é um incentivo que ajuda as pessoas, principalmente as de baixa renda, que precisam se deslocar até para fazer um passeio no final de semana com a família.
Prova de que é eficiente foi o aumento de usuários. Nós passamos de 800 mil para 1,5 milhão de usuários. Isso prova que ele é um programa eficiente, e que a população utiliza o transporte público e aprova.
Agora, nós como gestores, como concedentes do serviço público de transporte, nossa obrigação é exigir da empresa, sim. Isso nós vamos fazer, estamos fazendo melhorias nos horários, cumprimento dos horários, melhoria nos veículos. Isso a empresa vai ter que fazer.
E para 2028, a licitação. Até 2028 nós vamos fazer a licitação que nenhum outro governo fez, mas nós vamos fazer a licitação dos ônibus.
DC: Ela vai ser baseada naquele estudo que está sendo feito pela Urbtec [empresa de engenharia, planejamento e consultoria com sede em Curitiba responsável pelos estudos de concessão do transporte público]?
Airton: Nós temos um contrato com a empresa até 2028, e vai ser cumprido esse contrato. Até lá nós vamos promover a licitação para que, quando findar o contrato no final de 2028, já tenhamos a nova vencedora, a empresa que vai fazer o gerenciamento do contrato do transporte público.
DC: Mais alguma coisa que o senhor queira acrescentar?
Airton: Tem um item que nós não falamos que é a segurança. Canoas, nos últimos 30 anos, 2025 foi o ano mais seguro. Tivemos um mês que não teve nenhum homicídio.
Tem que falar mesmo. Então, a gente não quer que nenhum canoense perca a vida. Tanto pelos métodos de segurança, mas também pela conscientização das pessoas que violência não leva a lugar nenhum, só destrói.
Então, esse é um fator que nós temos muito a comemorar, porque quando se perde uma vida, se perde uma estrutura familiar. Então, isso nós temos sim que comemorar.